Caleidoscópio

"Enganos de alma e fome dos sentidos" canta-me a Carminho aos ouvidos. Lia alguém no outro dia que dizia que a melancolia é uma conversão da tristeza em beleza. Parece-me adequada a ilustração para uma palavra que me legenda sem me acorrentar. Ser apadrinhada pela melancolia afinal não é assim tão mau. É uma lente optimista sobre uma espécie de saudade do irrepetivel pela mera passagem do tempo. É uma espécie de estado de adoração genérico do que já não volta. Creio haver uma miscigenação (se vos ocorrer ir ao dicionário, trata-se de uma perda de diversidade genética - precisamente o que quero dizer) entre fado e melancolia. Nunca vi a melancolia com a qual me habituei a conviver, especialmente revisitada por música ou registos a que associo a determinadas memórias, como uma ida sem retorno, com o predeterminismo do fado, do destino traçado pelos mares e pelos deuses do Atlântico que banha esta nossa costa ocidental. Quero com isto dizer que ambos frequentemente são colocados juntos, como se fossem a mesma coisa. E acho que não são. O fado coloca o destino na mão de um terceiro. Remove-nos a agência e simultaneamente a responsabilidade. A melancolia banha memórias que se criaram com a consciência de que foram boas e que não voltarão. A melancolia relembra-nos da efemeridade da vida mas não nos coloca em sítio nenhum pelas mãos de ninguém, como o assombro do fado. A melancolia gera energia para que o presente se torne em futuro pela alegria de ter vivido um passado. O fado torna o futuro predestinado soprado por um espirito qualquer dramático que nós europeus do sul tanto apreciamos. Uma espécie de desculpa herdada para que tenha sido o fardo do fado, uma entidade tenaz e amaldiçoada. Segunda reflexão do dia: para se escrever com sumo algum tipo de conteúdo que interesse há uma dose de criatividade necessária muito forte. Serão todos os escritores que se prezem absolutamente autocentrados e narcísicos ou tão criativos que roçam o espectro da patologia psiquiatrica tal é a capacidade inesgotável de imaginar vidas e entranhas e conflitos que nunca existiram? Ser curiosa chega? Afinal, quais são os pré-requisitos? Terceira: Lá estou eu a escrever sobre escrever. No processo sobre o processo. Em jeito de caleidoscopio. Estão já a ver o olho, duplicado nas vertentes todas? Pelos olhos se vêm a alma (ou será pelos textos?). E a minha alma, pelo monóculo de um caleidoscopio é um azulejo português. Melancólico.

Comentários

  1. Minha filha,que naco de prosa bem escrito e bem expresso. Abrilhantas as palavras com alma. Colocas emoções em cada uma. Continua nessa procura,de saber,o que fazer com essa busca. Força minha querida. Da mãe ,que muito te admira.

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  2. A alma raramente se engana. Às vezes tentamos enganá-la! Quando isso sucede ela vinga-se e nasce o fado, que nem sempre é o nosso, mas uma construção em que nos deixamos envolver. Gostei tanto do teu texto Sílvia! Os escritores só imaginam vidas e entranhas que vivem e, por vezes com eles. Obrigado.

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