10 anos depois

Há 10 anos, precisamente em Janeiro, estava a sair de Portugal. Em processos de limpeza e arrumações digitais (entre apagar 140 mil e-mails, reorganizar rotinas com menos ruído tecnológico, entre outros, esbarrei com este meu blog. Reli as pequenas crónicas e sorri. A vida mudou tanto em 10 anos. Achei que era um sinal desejar há tanto tempo escrever e encontrei alguma beleza em deparar-me com um blog que ficou pelo caminho há 10 redondos anos. E porque acho graça a estes sinais que me empurram a tomar iniciativas, achei que era uma boa ideia tentar retomar aqui este espaço. Podia escrever só para mim sem dúvida alguma. No entanto, se houver mais alguns pares de olhos a acompanhar este processo (sempre fui ambiciosa - não peço só um par. venham vários), encontro outra motivação para manter o hábito. Afinal, acho que a vida em comunhão é de uma forma geral mais rica, ainda que este acto seja de profunda introspeção. Se o leitor encontrar alento ou sumo no que eu tiver para dizer aqui neste espaço, já somos duas pessoas mais preenchidas. Foram poucas as crónicas que para aqui publiquei mas curiosamente foram de um período muito intenso, que em retrospectiva me parece quase heróico ter sido escrito. A falta de tempo era grande, as ansiedades também e no fundo a sua existência confirma o que o peito me grita: que escrever me salva e me desinquieta. Como se fosse um despojo de coisas. Uma espécie de gaviscon (ou antes um bom chá?) para o (re)fluxo das coisas aborrecidas. Uma infinidade de possibilidades que me agradam contrapondo a previsibilidade (tão desejada e que tanto tempo demorou a conquistar) de um trabalho técnico minucioso que me parece diametralmente oposto à liberdade que qualquer coisa em branco tem (uma página, uma tela, uma faixa de música no garage band). E antes que me emaranhe a escrever sobre escrever (nas minhas dezenas de tentativas de começos de escrever um tal livro que nem sei se sequer tenho categoria para ambicionar escrever debruço-me incessantemente só sobre o acto redudante que é fazer o que estou a fazer neste momento), o melhor é já ficar feliz por me ter desembaraçado de uma vez por todas de todo um caderno muito coçadinho com um lápis também ele muito coçadinho e estar à frente do meu novo computador, tão promissor de hábitos novos e viagens interiores (não obstante, as exteriores também por cá andarão evidentemente). Sem grandes compromissos, heis que aqui deixo o meu primeiro post depois de 10 anos de ausência. E heis que me surge a primeira dúvida: ainda se lêm blogs? Não sei bem. Só estou em condições de responder com segurança que ainda se escrevem. Até amanhã ou depois, sim? Sílvia

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