0.2. Sandra, do avião que ia quase caindo
Tanto para escrever e ler em alemão e inglês em cima da secretária e só me apetece comunicar em português.
Estou com a chamada "birra linguística".
Queria aproveitar para agradecer também o excelente feedback recebido pela constituição do blog. Se o seguirem, espero mantê-lo ao nível das vossas (e das minhas) expectativas.
E claro que me empenhei logo bem cedo a desenvolver alguns títulos de histórias vividas na última semana e que tenho imensa vontade de contar. O difícil é eventualmente respirar entre cada uma delas. Por mim falava ou escrevia sempre sem grandes paragens. O objectivo será passar o meu sorriso a contar todas as histórias, falando a escrever. Por isso, logo de manhã, com o meu maravilhoso mueslie ovomaltine, esquematizei logo os próximos temas com títulos reais e sucintos, que nos remeterão para curtos episódios ao longo desta semana.
Para aguçar a curiosidade, eis alguns:
"Senhora das Patentes"
"Jogador Senegalês de Salzburg"
"Expert Killer Syndrome"
Por achar alguma graça à ilustração dos relatos com fotografias, começo pela Sandra, que conheci algures entre Palma de Maiorca e Bonn, no ar. As seguintes histórias não terão uma fotografia respectiva. Prometo, contudo, quando me forem acontecendo situações dignas de serem partilhadas (e não receio que não aconteçam, tenho algum magnetismo para histórias giras. Será que tem a ver com o facto de falar muito? Humm..), lembrar-me-ei de registar graficamente o momento.
Depois de uma hora e pouco em Palma de Maiorca, entre os voos que me esperavam, não me encontrava no melhor dos meus estados fisiológicos. Os olhos doíam-me, porque isto das viagens é giro mas quando vamos com 20 kg no porão, 9 kg nas costas e uns quantos a menos na alma, sem viagem de regresso no programa das festas, custa. Ia sozinha, mais uma vez, e no aeroporto não me deixavam fumar. Ou melhor, burocraticamente era um processo complicado, porque não era uma verdadeira escala mas na verdade era, ou seja, podia mas não devia sair das portas de embarque. Resumindo (isto dos resumos ainda tem que ser trabalhado em mim, eu sei), hiperventilava com a falta de nicotina, os olhos doiam-me e apetecia-me um petisco do McDonalds. Não estava de facto, nos meus melhores dias.
Quando finalmente chego ao segundo avião do dia, calho no último lugar ao fundo. Exagerei um pouco no peso que tinhas às costas e foi com algum custo que cheguei ao destino onde me sentaria nas quase três horas seguintes. E como o karma dos últimos lugares é por norma demorarem tanto tempo a chegar, porque ao longo do corredor vão parando à espera que os afortunados dos lugares anteriores vão colocando os seus pertences nos locais correspondentes, que quando finalmente chegam... têm menos de meio metro de largura e profundidade para, sabe-se lá como, encaixar com perícia as mochilas ou malas de mão (que toda a gente sabe que por norma são tão grandes quanto os limites permitidos, pelo menos se for português - enquanto não se paga mais por isso, "a gente" leva).
E caso não tenham percebido, eu sou portuguesa, e vi-me grega para enfiar milagrosamente o raio dos meus pertences que tinham precisamente o limite espacial máximo permitido, e indiscutivelmente maior do que o espaço que os afortunados me tinham deixado, depois de se terem adiantado na sua própria tarefa.
Bom, posto isto, deixei escapar alguns grunhos de esforço duplo, pela altura e peso que me eram requeridos pelas necessidades. E os senhores alemães continuavam a ler o jornal, afastando ligeiramente o pescoço com receio que a mala lhes caísse em cima. E eis que me aparece a Sandra, perguntando-me em alemão se eu queria ajuda. Disse-lhe que sim e concluímos a tarefa juntas, com um enorme sorriso de gratidão mas com algum espanto por ser alemã e a mais pequena do avião, que me teria ajudado.
Reparo então que o meu lugar à janela era ao lado da rapariga que me ajudara mas muito honestamente não me apetecia já falar alemão. Teria seguramente muito tempo para ter que falar alemão.
Uns vinte minutos depois de uma turbulenta descolagem reparo que a vizinha estava a ler uma national geographic em inglês. E tanto quanto julgo saber, uma alemã compraria seguramente a versão na sua língua materna. E por isso passou-me rapidamente pela cabeça que poderia ser uma jovem emigrante algures por aí, que também fosse viver para a alemanha e então perguntei de onde era, em inglês. E responde-me "Pórtiugaul" (ler com sotaque inglês).
E aí eu sorri muito e disse "A SÉRIO?" :)
E ela respondeu-me com um ar maternal que sim, que era dos açores. E aí eu respirei e pensei: "Vá, calma, ainda não podes estar na fase de quereres ver a Sport TV e comer sardinhas. Estás há 6h fora de casa. Calma". E falámos muito. Contou-me que tinha 39 anos, que tem uma filha nos Açores, de 9 aninhos e que emigrou à um ano e dois meses para uma pequena cidade entre Dusseldorf e Colónia. Aos poucos foi-me contando toda a história da sua família, que os pais já faleceram, que tem 4 irmãos e que tinha agora estado com um irmão polícia, casado com uma senhora do Porto e por isso, residente no continente. Que o sonho dela era abrir uma loja de tatuagens mas que por enquanto trabalhava numa gelataria, cujo dono italiano, também ele logicamente emigrante na Alemanha, a tratava muito bem. Que lhe dava um quarto e um ordenado de €900 euros. Mas que no inicio, chorava muito. Dividia quarto com uma romena, que trabalhava noutro estabelecimento e que não falava uma palavra de alemão. E que partiu em três dias dos Açores, porque mesmo depois de tirar uma licenciatura em Relações Públicas, com 37 anos não encontrava trabalho. E que depois de ter pedido ajuda ao banco alimentar para comer, decidiu começar a limpar casas. E foi na casa dos patrões que lhe foi falada esta proposta de trabalho. A filha foi o que mais lhe custou deixar para trás e foi pela filha que emigrou. E no meio de sorrisos, eu ia chorando por trás dos olhos, porque estava sem óculos, mas as lágrimas saltaram-me quando se comoveu com a descrição da filha no aeroporto, horas antes de nos conhecermos.
De repente, os copos de café saltam-nos para cima e a barriga aperta-nos os orgãos. Ouvimos gritos das pessoas e o aviso do cockpit de que se espera um voo turbulento.
Na verdade, quando ouvimos turbulento, nunca pensamos que fosse assim. Ando de avião desde pequenina e apesar de não tão viajada como gostaria de ser aos 23 anos, não me posso queixar. E achei que ia morrer. Confesso também que o meu cérebro estava dividido entre o "eu não posso morrer, e então os -20 kg de alma? como é que ficam?" e o "ao menos não deve doer muito". A certa altura, eu e a Sandra davamos as mãos e recitavamos interiormente avé-marias (eu não sei se só eu é que sou assim, mas durante um estado quotidiano, não quero saber de religião e deus para nada, mas valha-me santa engrácia se lá em cima não disse uns pais nossos, enquanto dizia à Sandra "isto não é muito normal, não achas?", com as pupilas muitíssimo pequeninas).
E nas paragens da turbulência (estivemos em sobressalto durante uma hora e meia com descansos de alguns minutos em que diziamos sempre: ok, agora já acalmou), ela mostrava-me fotografias antigas impressas no computador, provavelmente à pressa, dos pais, dos irmãos, dos açores, muitas delas digitalizadas para que possa levar para o seu quarto, na Alemanha, onde espera em breve poder receber a filha. E é da Alemanha que ela dos 900€ que ganha, põe religiosamente €400 no banco, para a filha. Porque €200 aqui lhe chegam perfeitamente, o resto poupa, noutro banco, para a filha e quem sabe, para a loja de tatuagens.
Quando aterrámos tirámos esta fotografia e trocámos moradas.

Certamente se por aqui ficar nas redondezas, vou comer um gelado com a Sandra.
Estou com a chamada "birra linguística".
Queria aproveitar para agradecer também o excelente feedback recebido pela constituição do blog. Se o seguirem, espero mantê-lo ao nível das vossas (e das minhas) expectativas.
E claro que me empenhei logo bem cedo a desenvolver alguns títulos de histórias vividas na última semana e que tenho imensa vontade de contar. O difícil é eventualmente respirar entre cada uma delas. Por mim falava ou escrevia sempre sem grandes paragens. O objectivo será passar o meu sorriso a contar todas as histórias, falando a escrever. Por isso, logo de manhã, com o meu maravilhoso mueslie ovomaltine, esquematizei logo os próximos temas com títulos reais e sucintos, que nos remeterão para curtos episódios ao longo desta semana.
Para aguçar a curiosidade, eis alguns:
"Senhora das Patentes"
"Jogador Senegalês de Salzburg"
"Expert Killer Syndrome"
Por achar alguma graça à ilustração dos relatos com fotografias, começo pela Sandra, que conheci algures entre Palma de Maiorca e Bonn, no ar. As seguintes histórias não terão uma fotografia respectiva. Prometo, contudo, quando me forem acontecendo situações dignas de serem partilhadas (e não receio que não aconteçam, tenho algum magnetismo para histórias giras. Será que tem a ver com o facto de falar muito? Humm..), lembrar-me-ei de registar graficamente o momento.
Depois de uma hora e pouco em Palma de Maiorca, entre os voos que me esperavam, não me encontrava no melhor dos meus estados fisiológicos. Os olhos doíam-me, porque isto das viagens é giro mas quando vamos com 20 kg no porão, 9 kg nas costas e uns quantos a menos na alma, sem viagem de regresso no programa das festas, custa. Ia sozinha, mais uma vez, e no aeroporto não me deixavam fumar. Ou melhor, burocraticamente era um processo complicado, porque não era uma verdadeira escala mas na verdade era, ou seja, podia mas não devia sair das portas de embarque. Resumindo (isto dos resumos ainda tem que ser trabalhado em mim, eu sei), hiperventilava com a falta de nicotina, os olhos doiam-me e apetecia-me um petisco do McDonalds. Não estava de facto, nos meus melhores dias.
Quando finalmente chego ao segundo avião do dia, calho no último lugar ao fundo. Exagerei um pouco no peso que tinhas às costas e foi com algum custo que cheguei ao destino onde me sentaria nas quase três horas seguintes. E como o karma dos últimos lugares é por norma demorarem tanto tempo a chegar, porque ao longo do corredor vão parando à espera que os afortunados dos lugares anteriores vão colocando os seus pertences nos locais correspondentes, que quando finalmente chegam... têm menos de meio metro de largura e profundidade para, sabe-se lá como, encaixar com perícia as mochilas ou malas de mão (que toda a gente sabe que por norma são tão grandes quanto os limites permitidos, pelo menos se for português - enquanto não se paga mais por isso, "a gente" leva).
E caso não tenham percebido, eu sou portuguesa, e vi-me grega para enfiar milagrosamente o raio dos meus pertences que tinham precisamente o limite espacial máximo permitido, e indiscutivelmente maior do que o espaço que os afortunados me tinham deixado, depois de se terem adiantado na sua própria tarefa.
Bom, posto isto, deixei escapar alguns grunhos de esforço duplo, pela altura e peso que me eram requeridos pelas necessidades. E os senhores alemães continuavam a ler o jornal, afastando ligeiramente o pescoço com receio que a mala lhes caísse em cima. E eis que me aparece a Sandra, perguntando-me em alemão se eu queria ajuda. Disse-lhe que sim e concluímos a tarefa juntas, com um enorme sorriso de gratidão mas com algum espanto por ser alemã e a mais pequena do avião, que me teria ajudado.
Reparo então que o meu lugar à janela era ao lado da rapariga que me ajudara mas muito honestamente não me apetecia já falar alemão. Teria seguramente muito tempo para ter que falar alemão.
Uns vinte minutos depois de uma turbulenta descolagem reparo que a vizinha estava a ler uma national geographic em inglês. E tanto quanto julgo saber, uma alemã compraria seguramente a versão na sua língua materna. E por isso passou-me rapidamente pela cabeça que poderia ser uma jovem emigrante algures por aí, que também fosse viver para a alemanha e então perguntei de onde era, em inglês. E responde-me "Pórtiugaul" (ler com sotaque inglês).
E aí eu sorri muito e disse "A SÉRIO?" :)
E ela respondeu-me com um ar maternal que sim, que era dos açores. E aí eu respirei e pensei: "Vá, calma, ainda não podes estar na fase de quereres ver a Sport TV e comer sardinhas. Estás há 6h fora de casa. Calma". E falámos muito. Contou-me que tinha 39 anos, que tem uma filha nos Açores, de 9 aninhos e que emigrou à um ano e dois meses para uma pequena cidade entre Dusseldorf e Colónia. Aos poucos foi-me contando toda a história da sua família, que os pais já faleceram, que tem 4 irmãos e que tinha agora estado com um irmão polícia, casado com uma senhora do Porto e por isso, residente no continente. Que o sonho dela era abrir uma loja de tatuagens mas que por enquanto trabalhava numa gelataria, cujo dono italiano, também ele logicamente emigrante na Alemanha, a tratava muito bem. Que lhe dava um quarto e um ordenado de €900 euros. Mas que no inicio, chorava muito. Dividia quarto com uma romena, que trabalhava noutro estabelecimento e que não falava uma palavra de alemão. E que partiu em três dias dos Açores, porque mesmo depois de tirar uma licenciatura em Relações Públicas, com 37 anos não encontrava trabalho. E que depois de ter pedido ajuda ao banco alimentar para comer, decidiu começar a limpar casas. E foi na casa dos patrões que lhe foi falada esta proposta de trabalho. A filha foi o que mais lhe custou deixar para trás e foi pela filha que emigrou. E no meio de sorrisos, eu ia chorando por trás dos olhos, porque estava sem óculos, mas as lágrimas saltaram-me quando se comoveu com a descrição da filha no aeroporto, horas antes de nos conhecermos.
De repente, os copos de café saltam-nos para cima e a barriga aperta-nos os orgãos. Ouvimos gritos das pessoas e o aviso do cockpit de que se espera um voo turbulento.
Na verdade, quando ouvimos turbulento, nunca pensamos que fosse assim. Ando de avião desde pequenina e apesar de não tão viajada como gostaria de ser aos 23 anos, não me posso queixar. E achei que ia morrer. Confesso também que o meu cérebro estava dividido entre o "eu não posso morrer, e então os -20 kg de alma? como é que ficam?" e o "ao menos não deve doer muito". A certa altura, eu e a Sandra davamos as mãos e recitavamos interiormente avé-marias (eu não sei se só eu é que sou assim, mas durante um estado quotidiano, não quero saber de religião e deus para nada, mas valha-me santa engrácia se lá em cima não disse uns pais nossos, enquanto dizia à Sandra "isto não é muito normal, não achas?", com as pupilas muitíssimo pequeninas).
E nas paragens da turbulência (estivemos em sobressalto durante uma hora e meia com descansos de alguns minutos em que diziamos sempre: ok, agora já acalmou), ela mostrava-me fotografias antigas impressas no computador, provavelmente à pressa, dos pais, dos irmãos, dos açores, muitas delas digitalizadas para que possa levar para o seu quarto, na Alemanha, onde espera em breve poder receber a filha. E é da Alemanha que ela dos 900€ que ganha, põe religiosamente €400 no banco, para a filha. Porque €200 aqui lhe chegam perfeitamente, o resto poupa, noutro banco, para a filha e quem sabe, para a loja de tatuagens.
Quando aterrámos tirámos esta fotografia e trocámos moradas.
Certamente se por aqui ficar nas redondezas, vou comer um gelado com a Sandra.
Vou acompanhar a tua saga! Felicidades, miúda!
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