Domingo, 29 de Janeiro de 2012

0.6. História do Morcego

De volta a Bonn e preparada para uma semana madrugadora a acordar às 6h. 

Já assinei o contrato com a nova casa e adivinhem: não há sanita na casa! Temos que descer umas escadas, fora de casa, para irmos à casa de banho. Pelo menos não é partilhada com ninguém do prédio, do mal o menos.

Deixo-vos hoje com um vídeo que me aqueceu o coração e me pôs os olhinhos a cintilar. 
Desde pequenina que gosto que me contem histórias. Lembro-me de ter caracóis e agarrar-me ao peitinho do meu pai (e de adorar que a barriga dele me servisse de almofada) e de o ter só para mim a contar-me histórias inventadas e lindas. E eram tão bonitas e inventadas que eu queria que ele as voltasse a contar e ele não conseguia, por serem inventadas. 


Se calhar é por isso que gosto de contar histórias.



E eis que hoje ouvi uma história (estou afastada da cultura física em língua portuguesa e por isso valha-me o santo youtube) contada em português que me deixou encantada e quero partilhar convosco (para não ser sempre só eu a contar histórias)






Fica também a sugestão para irem ver a peça que está em cena deste senhor aí no teatro da comuna "3 actores à procura de um papel"

Termino esta curta publicação com a notícia da chegada do meu irmão Rui a Lisboa durante o mês de Fevereiro, que vive em Macau e que eu já não vejo há uns 2 anos e pelos vistos ainda não é desta. Seja como for, deixo-vos com o último registo fotográfico do mano, em jeito de "não estarei lá mas estás aqui comigo, no blog, e com toda a gente" :)



A vossa Silvinha





Sábado, 28 de Janeiro de 2012

0.5. Time Out

É uma vergonha. Tanto tempo sem escrever, sem tempo e tanto para contar.

Começo por dizer que estou muito bem por aqui.
Tenho muitas saudades, claro, mas já me sinto bem mais acompanhada, o meu Diogo já está aqui ao meu lado.

Em Viena fiquei até segunda-feira e penso que nos 5 dias que lá passei devo ter dormido umas 11-12h no total. Vi muito pouco da cidade mas foi mais uma experiência inesquecível. Aprendi e vivi imenso uma vez mais.

Vou contando histórias acumuladas ao longo do blog, já sabem. Acho mais correcto ir contando histórias em diferido, já que pela sua ilustração habitual é inevitável alguma exposição não autorizada pelas respectivas personagens e por isso, disperso-as pelo tempo.

Seja como for, ilustro uma das noites brancas de Viena. Estava com o coração tão cheio nessa noite, por me saber com o cabelo branquinho aos molhos.


  Hoje estou especialmente feliz (sim, acho que realmente estou feliz aqui, apesar de longe do meu chiado e cansada). Tive o meu primeiro dia verdadeiro de urgências enquanto médica dentista na alemanha e correu mesmo muito bem. Estou entusiasmada com Medicina Dentária e é bom sentir-me assim, depois de muitos altos e baixos e hesitações de percursos ao longo dos tempos de estudante. Assim gosto disto. E muito.

Também acho que devo partilhar algumas banalidades do quotidiano, como hoje ter acordado com o anúncio de que dentro de horas ficaria sem frigorífico e todos os móveis (à excepção do meu quarto depois de alguma resistência) da casa onde estamos agora a viver e da qual sairei na próxima terça-feira. Até lá estaremos a comer cereais de maçã (sim, tive alguns presentes portugueses com a chegada do meu menino, como farinheiras, pastéis de belém e cereais de maçã) em canecas  com colheres de sobremesa. Seja como for, daqui a uma semana mudamo-nos para a nova casa e nos entretantos (entre dia 31 e dia 4) ficaremos instalados na casa da minha companheira da clínica, a minha Julia, que vive a uns 25 minutos de carro do centro. Significa isto que a semana que se segue será dura, já terei o turno mais cedo, das 7h às 15h. E o que é mais giro nisto tudo é que ainda não sei se temos sanita na nova casa! Não me lembro de ver nenhuma sanita quando fui ver a casa ao vivo. Carissimos leitores e amigos, façam figas! Não quero ir fazer chichi com graus negativos nos corredores do prédio de pantufas e robe com cócós alheios dispersos por aí. Assim que tiver notícias sobre este assunto, rapidamente comunico.

Outra banalidade é a birra que me deu ao longo desta semana pela saudade de legumes e fruta portuguesa. Há três semanas que comprei pimentos e eles continuam intactos. Que raio de conservantes é que eles põem nos legumes? e na fruta? As cebolas não grelam por nada deste mundo.

Entretanto fizemos uma descoberta linda aqui na cidade (algo que parece ter origem em Colónia): A ponte que atravessa o rio Reno aqui em Bonn (e já nos foi dito que em Colónia é a uma escala colossal) está cheia de cadeados personalizados.
Representam cada um deles o amor de um casal que por lá tenha passado, respectivamente personalizado (fotografias de Diogo Fernandes):





How beautiful is that? 


Amanhã iremos a Dusseldorf passar o Domingo.

Time Out! 

Será o meu primeiro dia inteiro livre desde que cheguei a Viena.
Terei seguramente registos fotográficos para partilhar.

Deixo-vos com uma fotografia com o belíssimo casaco emprestado da Margarida Cortez, da Asos, durante uma noite muito especial em Viena com os meus queridos portugueses. Um dia destes partilho a fotografia do grupo.  




Saudades tremendas cheias de boas energias,
(depois de ter passado o dia a dizer com um sorriso "Olá, o meu nome é Sílvia e sim, sou médica dentista, eu sei, sou novinha, mas sou mesmo médica dentista!")

Silvinha (ou Silvie, para os mais alemães mais chegados)








Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2012

0.4. e amanhã Viena

Às 5h30 estou a caminho do aeroporto! Levantar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer. E por isso vou com os meus sapatos novos nos pés, para ver se fico com mais saúde ainda. Porque mais crescida fico concerteza.


H&M e a minha noção de centralidade mais uma vez. Camurça no terço posterior e wanna-be-leather nos dois terços anteriores.

Queria partilhar convosco que agora um dos meus exercícios diários na clínica é, entre consultas nas curtas pausas, pegar em ressonâncias magnéticas dos milhões de doentes da clínica e tentar perceber o que é que se passa em cada articulação.
Deixo-vos aqui um cheirinho das minhas recentes aquisições de cultura médico-visuais (sim, aprendemos qualquer coisinha na faculdade, mas por nunca se por em prática no inicio parece um bocadinho chinês. Confesso que hoje passei o dia um bocado desanimada, porque é tanta informação em tantos campos diferentes que julgo não acompanhar tão depressa como gostaria.  E como diz o professor, os primeiro 50 "exercícios" serão de difícil diagnóstico. Ninguém nasce ensinado e esta área não faz parte do pacote "medicina dentária para lerdos".



"Die Übung macht der Meister".

E agora respirando um bocadinho, já tenho a mala feita e parto para mais um fim de semana cheio de informação e seguramente pouco sono. Prometo que à primeira fotografia nevada, dou notícias.


Antes que me esqueça, já tenho casa para os próximos dois meses. O duche é na cozinha e a cama é uma mesanine sobre a salinha. É no Altstadt de Bonn, ou seja, na zona dos turcos.

O meu nariz diz-me que estarei seguramente em casa.
 

A vossa Sílvinha

(Se tivesse que fazer um "abstract" deste post, quais seriam as palavras chave? Ressonâncias Magnéticas, H&M, Turcos? Que fortuna em conteúdos, este meu blog)

Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012

0.3. Bonn e a passagem pelo Inferno

Que título melodramático não é?
Não é nada mais do que um título para estimular os leitores a lerem o conteúdo desta mensagem!

Questionar-se-ão certamente se estará tudo bem comigo.
Se a duas semanas de cá estar, já acho que isto é um inferno.


Não! Descansem. Está tudo bem comigo.

Estive dois dias sem escrever porque precisava de descansar. Sexta-feira tive o meu primeiro dia de urgências na clínica e parecia que estava no ER. Atendi pacientes e tive umas 10h sem comer. Muito stressante, estafante mas depois de uma avaliação depois de ter descansado, bastante produtivo (claro que sexta-feira à noite estava com uma birra tremenda por não perceber como é que eles passam tantas horas a trabalhar, sem pestanejar e sem comer.
Sacode preguiça portuguesa. Entrai oxigénio alemão cheio de energia).

O inferno não vem contudo das experiências profissionais mas sim no meu caminho diário depois da clínica e antes de chegar a casa, se pelo meio for ao supermercado. Ora vejam:


Passo todos os dias pelo inferno.

E esclarecido o mistério partilho convosco a bela catedral a 300m de casa e a câmara municipal, também a uns minutos de distância (por ordem inversa nas fotografias)



E deixando-me de fotografias deixem-me contar-vos que esta semana acordo todos os dias as 5h30 da manhã, já que tenho que estar a postos na clínica às 6h45 para o primeiro doente. Por isso perdoem-me se não estiver apta a ser tão descritiva nas minhas histórias. É provável que chegue a quarta-feira tão estafada que fale por tópicos e linguagem gestual.

Deixem-me dar-vos duas novidades excelentes:
- Fico em Bonn até pelo menos 31 de Março.
- Vou ao Japão no final de Março.

Sinto-me uma criança com 10 anos quando penso que no Japão vou poder comprar um fato da Sailor Moon. Eu sempre sonhei em mascarar-me de Sailor Moon! (desculpem se o blog teve um declíve de qualidade com esta frase, mas já que sou palerma ao ponto de achar (citando o meu amigo Pedro Gomes) que a H&M é um ponto de referência na minha centralidade, e já que compenso hoje de algum modo ao falar na catedral e na RatHaus), falar da Sailor Moon é inócuo. Espero eu.


Ok, back again from the 90s, vou lá ficar uma semana e profissionalmente será muito bom seguramente. Mais próximo da data desenvolvo mais este assunto.

Seja como for, vale a pena referir que esta quinta-feira volto a Viena, avião que apanharei novamente de madrugada. Levo o computador comigo e por isso conto fazer lá um relato descritivo de como correm as coisas. Fico até domingo.

Entretanto amanhã irei ver o novo apartamento que se tudo correr bem alugarei com o meu Diogo, também no centro de Bonn até os dois meses que por cá ficaremos. Amanhã, se se confirmar, posto fotografias! Mas adianto que o duche é na cozinha. How cool is that?

Tenho histórias no bolso para contar mas com tanto alemão que tenho falado e lido, não me sinto com português suficiente para mais do que contar novidades quotidianas.

Desnecessário será dizer que tenho imensas saudades de  Lisboa.

E que sábado passei a tarde com "olhos vidrinho".





Sílvinha




Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2012

0.2. Sandra, do avião que ia quase caindo

Tanto para escrever e ler em alemão e inglês em cima da secretária e só me apetece comunicar em português.

Estou com a chamada "birra linguística".

Queria aproveitar para agradecer também o excelente feedback recebido pela constituição do blog. Se o seguirem, espero mantê-lo ao nível das vossas (e das minhas) expectativas.

E claro que me empenhei logo bem cedo a desenvolver alguns títulos de histórias vividas na última semana e que tenho imensa vontade de contar. O difícil é eventualmente respirar entre cada uma delas. Por mim falava ou escrevia sempre sem grandes paragens. O objectivo será passar o meu sorriso a contar todas as histórias, falando a escrever. Por isso, logo de manhã, com o meu maravilhoso mueslie ovomaltine, esquematizei logo os próximos temas com títulos reais e sucintos, que nos remeterão para curtos episódios ao longo desta semana.
Para aguçar a curiosidade, eis alguns:

"Senhora das Patentes"
"Jogador Senegalês de Salzburg"
"Expert Killer Syndrome"

Por achar alguma graça à ilustração dos relatos com fotografias, começo pela Sandra, que conheci algures entre Palma de Maiorca e Bonn, no ar. As seguintes histórias não terão uma fotografia respectiva. Prometo, contudo, quando me forem acontecendo situações dignas de serem partilhadas (e não receio que não aconteçam, tenho algum magnetismo para histórias giras. Será que tem a ver com o facto de falar muito? Humm..), lembrar-me-ei de registar graficamente o momento.

Depois de uma hora e pouco em Palma de Maiorca, entre os voos que me esperavam, não me encontrava no melhor dos meus estados fisiológicos. Os olhos doíam-me, porque isto das viagens é giro mas quando vamos com 20 kg no porão, 9 kg nas costas e uns quantos a menos na alma, sem viagem de regresso no programa das festas, custa. Ia sozinha, mais uma vez, e no aeroporto não me deixavam fumar. Ou melhor, burocraticamente era um processo complicado, porque não era uma verdadeira escala mas na verdade era, ou seja, podia mas não devia sair das portas de embarque. Resumindo (isto dos resumos ainda tem que ser trabalhado em mim, eu sei), hiperventilava com a falta de nicotina, os olhos doiam-me e apetecia-me um petisco do McDonalds. Não estava de facto, nos meus melhores dias.

Quando finalmente chego ao segundo avião do dia, calho no último lugar ao fundo. Exagerei um pouco no peso que tinhas às costas e foi com algum custo que cheguei ao destino onde me sentaria nas quase três horas seguintes. E como o karma dos últimos lugares é por norma demorarem tanto tempo a chegar, porque ao longo do corredor vão parando à espera que os afortunados dos lugares anteriores vão colocando os seus pertences nos locais correspondentes, que quando finalmente chegam... têm menos de meio metro de largura e profundidade para, sabe-se lá como, encaixar com perícia as mochilas ou malas de mão (que toda a gente sabe que por norma são tão grandes quanto os limites permitidos, pelo menos se for português - enquanto não se paga mais por isso, "a gente" leva).

E caso não tenham percebido, eu sou portuguesa, e vi-me grega para enfiar milagrosamente o raio dos meus pertences que tinham precisamente o limite espacial máximo permitido, e indiscutivelmente maior do que o espaço que os afortunados me tinham deixado, depois de se terem adiantado na sua própria tarefa.

Bom, posto isto, deixei escapar alguns grunhos de esforço duplo, pela altura e peso que me eram requeridos pelas necessidades. E os senhores alemães continuavam a ler o jornal, afastando ligeiramente o pescoço com receio que a mala lhes caísse em cima. E eis que me aparece a Sandra, perguntando-me em alemão se eu queria ajuda. Disse-lhe que sim e concluímos a tarefa juntas, com um enorme sorriso de gratidão mas com algum espanto por ser alemã e a mais pequena do avião, que me teria ajudado.

Reparo então que o meu lugar à janela era ao lado da rapariga que me ajudara mas muito honestamente não me apetecia já falar alemão. Teria seguramente muito tempo para ter que falar alemão.

Uns vinte minutos depois de uma turbulenta descolagem reparo que a vizinha estava a ler uma national geographic em inglês. E tanto quanto julgo saber, uma alemã compraria seguramente a versão na sua língua materna. E por isso passou-me rapidamente pela cabeça que poderia ser uma jovem emigrante algures por aí, que também fosse viver para a alemanha e então perguntei de onde era, em inglês. E responde-me "Pórtiugaul" (ler com sotaque inglês).

E aí eu sorri muito e disse "A SÉRIO?" :)

E ela respondeu-me com um ar maternal que sim, que era dos açores. E aí eu respirei e pensei: "Vá, calma, ainda não podes estar na fase de quereres ver a Sport TV e comer sardinhas. Estás há 6h fora de casa. Calma". E falámos muito. Contou-me que tinha 39 anos, que tem uma filha nos Açores, de 9 aninhos e que emigrou à um ano e dois meses para uma pequena cidade entre Dusseldorf e Colónia. Aos poucos foi-me contando toda a história da sua família, que os pais já faleceram, que tem 4 irmãos e que tinha agora estado com um irmão polícia, casado com uma senhora do Porto e por isso, residente no continente. Que o sonho dela era abrir uma loja de tatuagens mas que por enquanto trabalhava numa gelataria, cujo dono italiano, também ele logicamente emigrante na Alemanha, a tratava muito bem. Que lhe dava um quarto e um ordenado de €900 euros. Mas que no inicio, chorava muito. Dividia quarto com uma romena, que trabalhava noutro estabelecimento e que não falava uma palavra de alemão. E que partiu em três dias dos Açores, porque mesmo depois de tirar uma licenciatura em Relações Públicas, com 37 anos não encontrava trabalho. E que depois de ter pedido ajuda ao banco alimentar para comer, decidiu começar a limpar casas. E foi na casa dos patrões que lhe foi falada esta proposta de trabalho. A filha foi o que mais lhe custou deixar para trás e foi pela filha que emigrou. E no meio de sorrisos, eu ia chorando por trás dos olhos, porque estava sem óculos, mas as lágrimas saltaram-me quando se comoveu com a descrição da filha no aeroporto, horas antes de nos conhecermos.

De repente, os copos de café saltam-nos para cima e a barriga aperta-nos os orgãos. Ouvimos gritos das pessoas e o aviso do cockpit de que se espera um voo turbulento.
Na verdade, quando ouvimos turbulento, nunca pensamos que fosse assim. Ando de avião desde pequenina e apesar de não tão viajada como gostaria de ser aos 23 anos, não me posso queixar. E achei que ia morrer. Confesso também que o meu cérebro estava dividido entre o "eu não posso morrer, e então os -20 kg de alma? como é que ficam?" e o "ao menos não deve doer muito". A certa altura, eu e a Sandra davamos as mãos e recitavamos interiormente avé-marias (eu não sei se só eu é que sou assim, mas durante um estado quotidiano, não quero saber de religião e deus para nada, mas valha-me santa engrácia se lá em cima não disse uns pais nossos, enquanto dizia à Sandra "isto não é muito normal, não achas?", com as pupilas muitíssimo pequeninas).

E nas paragens da turbulência (estivemos em sobressalto durante uma hora e meia com descansos de alguns minutos em que diziamos sempre: ok, agora já acalmou), ela mostrava-me fotografias antigas impressas no computador, provavelmente à pressa, dos pais, dos irmãos, dos açores, muitas delas digitalizadas para que possa levar para o seu quarto, na Alemanha, onde espera em breve poder receber a filha. E é da Alemanha que ela dos 900€ que ganha, põe religiosamente €400 no banco, para a filha. Porque €200 aqui lhe chegam perfeitamente, o resto poupa, noutro banco, para a filha e quem sabe, para a loja de tatuagens.

Quando aterrámos tirámos esta fotografia e trocámos moradas.



Certamente se por aqui ficar nas redondezas, vou comer um gelado com a Sandra.

Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012

0.1. Primeira Semana

Começo por dizer que a acho que a minha noção temporal avariou.

Quando penso que a avaliação da passagem do tempo deve por definição ser pouco variável, (pressupõe-se que o tempo se marca e passa sempre da mesma forma) fico baralhada.

Ora faz uma semana que cheguei à Alemanha, por volta desta hora. Faz uma semana que no mesmo dia apanhei três aviões, partindo da minha Lisboa para Palma de Maiorca e depois para Bonn. 5 horas depois, e com 15 minutos de um sono tão leve que julgo recordar-me dele acordada, voltei a voar para Viena, desta vez, onde fiquei durante o fim de semana.

Em jeito de diário, fiquei hospedada no hotel kummer durante três noites. Assisti ao curso do Prof. Sato, a um módulo relativamente avançado as minhas capacidades actuais na Viesid.

Sábado à noite fui à ópera pela primeira vez a sério e vi "Die Lustigen Weiber von Windsor", com o Prof. Greven, a Inês, uma portuguesa e médica exemplar e o Suki, um japonês com um perfil muito engraçado. E antes de começar, tirei uma fotografia:



Agora estou em Bonn e muito sucintamente estou a gostar. Pela primeira vez vivo no centro de uma cidade, que apesar de não ser a minha e ser emprestada por um relativo curto espaço de tempo, saio de casa e tenho uma H&M a 200m. E vou de bicicleta para a clínica. E em três minutos ponho-me lá.
E tenho uma máquina de café expresso à disposição na clínica. E estou sempre com uma assistente dentária espectacular, a Julia. E porque estou a aprender imenso, ainda que sem pausas para comer, porque quando existem prefiro fumar na garagem do que comer um pãozinho. E porque o tempo é pouco, também não tenho fumado muito.

Ontem perdi-me em Bonn, e liguei o GPS quando estava a 300m de casa. Prefiro pensar que estou tão concentrada em absorver um conjunto imenso de informação nova que de alguma maneira enterrei momentaneamente o meu excelente sentido de orientação lisboeta. Eu tenho uma reputação a manter, ora essa.

E tenho mais novidades mas por ter que ler agora um caso clínico em alemão, e porque ler não é suficiente, já que perceber também me será útil, terei agora que suspender a minha ânsia de vos contar coisas, porque na verdade tenho tanto para contar. E ao mesmo tempo espero que não vos mate a curiosidade toda, e que queiram estar comigo quando um dia destes voltar a lisboa, porque já sabem que tenho sempre muito para contar e falar.

E já agora, estou cheia de saudades.

Deixo-vos com uma fotografia da minha vista durante 8 ou 9h por dia



E do meu outfit clínico ao lado da portuguesa emigrante que trabalha na clínica há 20 anos e vive na alemanha há 39 (falamos assim uma papa misturada de alemão e português uma com a outra, é tão bom)



Por último (já estou no último ha algumas linhas atrás) encontrei ovomaltine mueslie, finalmente!



E não podia deixar de partilhar que comprei um gel anti-celulite, um creme para o corpo, um champô xpto, o mueslie, desmaquilhante e velinhas anti-tabaco por €12 euros. Viva as pechinchas alemãs.



E por isso, daqui a umas horas estarei a tomar o pequeno-almoço verdadeiramente regozijada. Acho que os meus cereais de maçã se sentirão traídos. Em breve pedirei kellogs K de maçã pelo correio, já que ainda não os encontrei por estas redondezas.

Sim, strange me.

Até já! BEIJOS

0.0. Apresentações

E porque a primeira entrada de um blog deve justificar a sua existência, não me é difícil explicar o seu título e o seu timing.

Este deverá ser um blog em jeito de diário ou de partilha. De comunhão de experiências que com a possibilidade de ser comentado, pretende que seja não apenas um monólogo.

E porque os mais próximos sabem do meu mais recente vício em blogs, porque não começar um também?

É um desafio ao qual me proponho manter fiel e também há nesta decisão alguma tentativa de rotina e compromisso para com o blog, por isso espero que possa trazer algo de novo para os curiosos visitantes do blog. Além disso, e por falar sempre muito, tentarei ser sucinta e quando não for, há sempre um scroll down para os leitores diagonais (ferramenta que permite a delicadeza de se evitar bocejos aquando de discursos longos).

Quanto a apresentações, provavelmente os primeiros visitantes dispensarão apresentações mas para os leitores que se esperam daqui a uns tempos se se interessarem em ver o primeiro entry deste blog, o meu nome é Sílvia e sou emigrante há uma semana. É verdade.

E eis que uma das justificações temporais e de nomenclatura está apresentada. É uma recente viagem sem regresso marcado, e espero encher este blog de novidades relativas a viagens "Trips". Perdoem-me os inveterados puristas da língua portuguesa, mas é bem mais fácil fazer títulos comerciais para blogs em inglês. Não que o queira por à venda, mas já que escrevo, e perdoem-me a presunção inicial de achar que terá algum interesse para ser lido por potenciais desconhecidos, gostava que fosse lido.

Para além de ser emigrante, sou médica dentista. E por isso poderá este também ser um dos conteúdos do blog, de uma forma não muito técnica, possivelmente mais entusiasta de alguns objectivos cumpridos, com explicações acessíveis a qualquer leitor. E por vivermos num mundo onde à partida escrever não nos dá direito a subsídio de alimentação, será a ferramenta que me permitirá viajar. E será ao longo de todo este processo que chegamos ao "Trendy", isto por querer fugir ao "Fashion", mas sem renegar o meu inequívoco interesse por objectos que nos adereçam. E mostrarei imagens de referência, possivelmente até fotografias minhas ou de outras pessoas que veja nas ruas, com outfits que me façam girar a cabeça e apressar-me a tentar captar uma imagem que possa partilhar. Não querendo repelir os mais sépticos, não posso renegar que a minha ligação aos blogs começa precisamente por aqui e por isso é com prazer que tentarei mostrar as minhas referências, gostos e influências.

E por último, por achar que tripistry tem alguma semelhança sonora com tapestry, que em português significa tapeçaria, gostava que esta fosse uma plataforma sólida, tecida de uma forma terapêutica com a publicação de novidades, reflexões e banalidades.

E feitas as apresentações, eis que parto para a minha banalidade, noutra mensagem.